sábado, 30 de abril de 2011

Nunca me esquecerei de ti.

É tão difícil perder alguém que amamos.O mais triste é perder e saber que nunca mais irá encontrar uma pessoa como ele,sublime é a única palavra que poderia descrevê-lo.
Lembro-me do dia que nos conhecemos.Era um dia tão obscuro e frio,que os poucos raios de sol que passavam pelas nuvens pouca diferença faziam naquela tarde tão tépida.
Nesses dias gelados,como era de costume ia naquela simples lancheria tomar o melhor chocolate quente d acidade,a qual naquele dia estava tão silenciosa,os pássaros pareciam nem existir,o silêncio era apenas quebrado pelo farfalhar das folhas caídas pelo vento do outono.
Cheguei no balcão já fazendo meu pedido:
- Boa tarde James!Quero o de sempre!-James era o dono da lancheria,tinha um pouco mais de 40 anos,o fios brancos e a calvice já haviam começado a parecer,ele já me conhecia há poucos anos,porém já sabia o que eu queria ao dizer “o de sempre”.
Fiquei esperando,encostada no balcão.Não demorou muito e meu chocolate quente estava pronto,peguei-o e me dirigi à mesa,a qual sempre sentava-me.Confesso que fiquei perplexa,era estranho alguém,além de mim,sentar nela.Aquela mesa era afastada de todas as outras,num cantinho minúsculo e mal iluminado,a qual me sentia tão aconchegada.
-Você quer sentar aqui?-ouvi aquele moço falando,sua voz era tão doce,que até parecia música aos meus ouvidos.
Não respondi nada,e ele continuou:
-James me falou que essa é a “sua mesa”,desculpe sentei-me nela mesmo ele me avisando,porque queria ficar sozinho  pensar um pouco na vida.-enquanto ele falava,percebi sua voz trêmula e aqueles olhos castanhos ficarem lagrimejados.
-Tudo bem,pode ficar sentado,eu sento em outro lugar.- respondi num tom amigável.
Enquanto virava-me,procurando outro lugar para sentar,ouvi ele me chamar novamente:
-Luiza,você quer se sentar comigo?-pediu ele,de uma maneira impossível de recusar.
-Claro,assim faremos companhia um ao outro!-respondi animadamente.
Ele se levantou,puxou a cadeira para eu me sentar,num ato cavalheiro.Tenho que admitir,que nunca haviam feito isso para mim.Sentei-me e logo percebi que ele também estava tomando chocolate quente.
-O chocolate quente daqui é o melhor chocolate quente da cidade!-disse eu tentando quebrar o silêncio.
-É a primeira vez que venho aqui,mas acho que depois de hoje começarei a vir todos os dias.-respondeu ele,num tom malicioso,dando uma piscada ao terminar a frase.
Senti-me corar,logo tentei arrumar algo para falar:
-Mas então,percebi eu você sabe meu nome,também gostaria de saber o seu.- falei num tom curioso,pois estava mesmo.
-É eu sei,o James me falou sobre você.- disse ele ainda não respondendo a minha pergunta.
-Espero que ele tenha falado coisas boas.-terminei minha frase,dando um sorrisinho singelo.
-Por que ele falaria mal de você?-falou ele- Pelas poucas palavras que trocamos,percebo que você é uma ótima pessoa.- disse ele,olhando diretamente nos meus olhos.
-E seu nome,agora posso saber?- perguntei novamente,num tom de voz ainda mais curioso.

-Já que você faz tanta questão de saber,prazer me chamo Rafael.-falou ele,de maneira educada.
Tomamos nosso chocolate quente,enquanto conversávamos.As horas passaram tão rápido.E os assuntos surgiam mais rápidos ainda.Resolvemos dar uma volta.Nos despedimos de James,e saímos para o ar gélido.Senti um arrepio de frio e comentei com o Rafael.
-Com licença. –disse ele,envolvendo seus braços envolta da minha cintura.
No começo era estranho,as pessoas que passavam pela rua olhavam para nós e algumas até comentavam “que belo casal!”
Continuamos caminhando e conversando.Parecia que nos conhecíamos há anos.Tantos gostos em comum.Nossa conversa fluiu tão bem.mas a noite chegara,trocamos o número de nosso telefone e nos demos um abraço de despedida.
Começamos a conversar todos os dias por telefone.Passou-se duas semanas,e combinamos de caminhar no parque,era um dia lindo,o sol estava brilhante no céu azul e a temperatura estava amenua.
 Cheguei lá e ele estava me esperando no lugar combinado.Corri em sua direção para lhe dar um forte abraço.Por sinal,acho que fui com muita força em sua direção ,o derrubei e cai por cima dele naquela grama verde e ali,aconteceu nosso primeiro beijo.
Ele me empurrou delicadamente,levantou-se e saiu caminhando apressadamente.Ali eu fiquei,sentada sem compreender nada,pensando no que havia ocorrido.Levantei-me e fui para casa.
Estava tão abalada,chorar era a única coisa que me restava fazer.Peguei no sono,enquanto assistia TV,mas fui acordada,quando meu celular tocou.Vi no visor o nome de Rafael.Pensei um pouco se deveria ou não atender.
-Alô!-disse eu,tentando disfarçar minha voz.
-Oi Luiza,sinto muito pelo que aconteceu algumas horas atrás,lhe devo satisfações,me encontra daqui uma hora lá na lancheria do James.- sua voz estava angustiada,e assim desligou.
Não tinha vontade de sair.Não estava nada bem e minha aparência não era das melhores.Fui tomar um banho,com esperanças que isso ajudasse a me sentir melhor.
Passou-se uma hora,lá estava eu sentada na mesa afastada de todos e Rafael não havia chegado.Estava com medo que ele não aparecesse,mas isso não aconteceu.Ele chegou,não nos olhamos diretamente,ambos tentavam se evitar,como se isso fosse possível.Aquele silencio era horrível.
-Desculpe pelo que fiz hoje,sinto muito.- disse ele,olhando para baixo.
E continuou...
-Aquilo não deveria ter acontecido...
-Porquê?Você tem namorada?-perguntei assustada,pois ele havia falado que estava solteiro.
-Não,não é isso!Tem coisas que você não sabe!
-Então me conte!-disse eu,num tom de voz mais alto.
Eu vou morrer!Tenho leucemia,e o tratamento não faz mais efeito para mim.Tenho pouco tempo de vida,não queria me apaixonar e muito menos queria que alguém se apaixonasse por mim!-as lágrimas escorriam pelo rosto dele.
Aquelas palavras doeram tanto quando as escutei.Queria nunca ter as escutado.Como a realidade dói!
-Eu te amo,e não importa o que aconteça!-foi a única coisa que consegui falar.

Nosso namoro durou três meses.Foram os três melhores meses de minha vida.Pena que tudo durou muito pouco.Foi numa madrugada,que recebi uma ligação da mãe de Rafael,informando-me sobre seu falecimento e dizendo que queria me entregar a carta que ele havia escrito para mim.A carta dizia:
“ Desculpe-me se te fiz um dia sofrer,ou se você sofrerá.Meu dia de partir chegou.Queria que você soubesse que sempre e verdadeiramente te amei,foram os três melhores meses de minha vida.Gostaria de lhe pedir que jogasse minhas cinzas lá no parque,lá naquela grama onde ocorreu nosso primeiro beijo.”

-Por: Débora Siqueira

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